Tenho a noção de que as mulheres são dramáticas por natureza. É um drama arrumar o emprego que sonha, o homem da vida. É um drama decidir se, ou quando, engravidar. É um drama escolher a cor do sapato para sair de casa. Enfim. Mas, acredito que o maior dos dramas da mulher contemporânea é encontrar a pessoa certa para cuidar de seu(s) filho(s) para poder ir trabalhar, tranquila de que sua cria está bem cuidada, bem tratada, que continua protegida. E, esse sim, é um drama real, não um problema imaginário.
Como confiar em alguém para ter a chave da sua casa, passar boa parte do dia lá, e cuidar do bem mais precioso de nossas vidas, os nossos filhos, que são mais importante do que qualquer emprego, qualquer pessoa, qualquer tudo? Quem não tem família depende de um estranho. E depender de estranho é absurdamente assustador.
Fora o medo, está cada vez mais difícil encontrar alguém para trabalhar em casa de família. Pela primeira vez, tive a real impressão de que o Brasil está se tornando um país melhor para viver. Até pouco tempo, filhas de empregadas domésticas se tornavam invariavelmente empregadas domésticas, como num disfarçado regime de castas indiano. Não tinham opção, tinham de ajudar em casa, e para isso acabavam largando a escola para nunca mais voltar. De poucos anos para cá, com a ajuda do governo, as famílias mantêm as crianças nas escolas. Elas conseguem outros empregos e com R$ 200 fazem uma faculdade. Ou seja, têm curso superior, (ainda) uma chance concreta de crescer na vida.
Uma colega de trabalho, muito sabiamente, preveu que se o rumo continuar esse, as mulheres brasileiras que trabalham fora, e não têm com quem deixar os filhos, terão de apelar para babás bolivianas. Eu fico muito feliz de o país ter mudado para melhor. Mas, ao mesmo tempo, me sinto completamente sozinha na luta que é ser mulher nos tempos de hoje.
(O desenho é de uma ilustradora chamada Aline)
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Thursday, January 6, 2011
Monday, December 27, 2010
Necessidade feminina
Hoje, li uma reportagem no The New York Times que fala sobre as mulheres paquistanesas. É daquelas que deixa a gente, ocidentais, com falta de ar. Jovens estão deixando a burca no armário, brigando com a família e sofrendo ameaças de morte por resolver trabalhar fora. Mas, a revolução, em um dos países onde o sexo feminino nada pode, não é motivada por causa de uma retardatária onda feminista, ou por desejos de liberdade. Quem dera, fosse. É por necessidade. O Paquistão vem sendo arrasado por altos índices de inflação. E, o salário dos homens, até então os únicos provedores, não segura o sustento das famílias, onde as mulheres ficam em casa cuidando do lar, dos filhos e se esforçando para agradar os maridos, pais e irmãos. São moças como Rabia Sultana, de 21 anos, que desde maio, quando arrumou um emprego no balcão do Mc Donalds, é mal tratada por sua família. Ela gasta seu salário de 100 dólares (!?) nas despesas da casa e no estudo das irmãs mais novas. Ainda assim, ninguém fala com ela na hora do jantar. O irmão mais velho chegou a fazer a típica cena. Deu-lhe um tapa na cara, confiscou-lhe o uniforme de trabalho e disse que a mataria se ela colocasse os pés para fora de casa. Mas, mais tarde, enguliu seco. O confisco de uniformes por imãos raivosos é tão comum que redes de lanchonetes, ao contratar paquistanesas, dão a elas três trocas de roupa. Os homens paquistaneses, pela primeira vez na história recente de seu país, estão tendo de rever seus conceitos por pura sobrevivência. E, agora, mais do que nunca, dependem das mulheres, também para ter o que comer. Eu torço para Rabia, em breve, ter condições (financeiras e morais) de ter a sua própria casa, onde seu marido e seus filhos a respeitem pela mulher que ela é. E, conversem com ela na hora do jantar. Afinal, isso também é uma necessidade.
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